Archive for the ‘infância’ Category
Da série: a-do-ra-va
O pintinho
(Retirado do meu caderno de 1992. O bonito desenho também é meu)
O pintinho
Meu nome é Pluminha. Sou um pitinho (sic) amarelinho… amarelinho…
Apesar de ser pequeno, construí a minha casinha. Uma casinha feita de pedra e tijolo.
Um dia ouvi um barulhão. Não sabia o que era.
Você sabe o que eu fiz?
Fugi assustado.
E você, o que faria?
Cão-maçã
A tia me deu de presente
Vinha dentro da caixa
Tinha cheiro de brinquedo novo
Era um cachorro
Mas quando virado do avesso
Era também uma maçã
Vira, desvira, vira
Cachorro, maçã, maçã, cachorro
Eu gostei da maçã
Era vermelha e gorda
O irmão gostou do cachorro
Que vestia um macacão listrado
A discussão surgiu
A tia ouviu
E veio com a solução:
Cabeça de animal, corpo de fruta
Assim nasceu o cão-maçã
Que vive comigo até hoje
Lobo bobo
Quando éramos crianças, eu e meu irmão não gostávamos de tirar fotos juntos. Sacomé, pentelhice infantil mesmo, eu menina, ele menino. A gente tinha que fingir que não se amava naquela época. Nossa progenitora sofria porque queria de qualquer jeito nos enquadrar para a posteridade imagética. Uma vez, na praia, ela inventou que eu deveria limpar a areia do cabelo do meu irmão. Pura evasiva para clicar os rebentos num insólito momento de carinho. Não sei o que foi feito de tal fotografia, mas ela não causou tanto impacto quanto outra, registrada a partir de um subterfúgio que me traumatiza assim, de leve, até hoje. Não me recordo o local exato do passeio. Eu tinha três anos. Eugênio, quatro. Arruinando a minha felicidade por passear com a família, minha mãe inventou que havia um lobo pelas redondezas. “Mariana, corre pra perto do seu irmão que o lobo tá vindo”. É claro que não só corri, como desesperadamente abracei o irmão. O resultado está aí. A carinha assustada não me deixa mentir. Satisfeita, mamãe?

De trem pra Vitória
De Valadares até lá eram oito horas. Não tinha vagão executivo. As poltronas eram desbotadas e rasgadas. Janela aberta mesmo, pro vento bater. Pais, mães, filhos, tios, primos, irmãos. A família era tão grande, a ansiedade maior. Malas ajeitadas ou jogadas. Os netos ficavam perto pra brincar de adedanha. Passavam vendendo biscoitos. As crianças queriam. O trem passava no túnel. Ficava tudo escuro lá fora. O primo bebê tinha ataques respiratórios. Alguém sempre falava mais alto. Pele e cabelo brilhavam por causa do minério de ferro. Estava chegando. Oba. Praia. De recordação só mesmo uma foto: mamãe ao lado de papai, os dois dormindo. Ela com a boca aberta, sono bom daqueles de babar. A tia palhaça foi quem registrou.
Estranhoco
(Redação que escrevi em 1992. O desenho também é meu. Tenho vontade de escrever um livro infantil sobre as aventuras do Estranhoco)

Eu sou o robô.
Meu nome é Estranhoco.
Gosto de fazer várias coisas: beber óleo, trabalhar, passear e fazer travessuras.
Fico feliz quando vejo o arco-íris, coisas bonitas e quando brinco…Quando minhas travessuras dão certo… Que emoção. É a minha maior alegria.
Só que às vezes eu também fico triste, quando acontecem coisas estranhas que eu não gosto como por exemplo: quando jogam água em mim, me maltratam, fico enferrujado…
Não gosto de me sentir estranho e abandonado.
O Lagartauro
Uma das lembranças fascinantes que tenho da minha infância é de uma parada que fazia com minha família no caminho para Vitória. Meus pais falavam comigo e com meu irmão que iríamos parar no Lagartauro. Só esses dias fui descobrir que esse nome na verdade não existe, é uma invenção dos meus pais.
O Lagartauro era parada para fazer xixi, lanchar e tirar fotos. A atração principal é a Pedra Azul, de formação de granito e gnaisse. Há uma outra pedra, a do Lagarto, que fica unida à Pedra Azul, dando a impressão de que há um réptil subindo na formação rochosa. Juntas, as pedras formam o cartão postal do município que, só hoje fui saber, se chama Domingos Martins.
Pouca informação eu tinha a respeito daquele local. Não sabia o nome da cidade, não sabia que ali havia o Parque Nacional da Pedra Azul, tão visitado por turistas, ou que um dos atrativos da região era o clima ameno, chegando a menos de zero grau no inverno.
Tanta falta de informação tinha seu motivo: eu era criança e só queria saber da história do lagarto na pedra. Meus pais me contavam que há muito tempo ele fora um gigantesco réptil que estava subindo a montanha e ficara congelado, virando uma pedra. Eu acreditava. Não tinha medo do lagarto – e até que seria fácil eu temê-lo, visto que o E.T do Spielberg me apavorava -, pelo contrário, achava simpática sua pequena biografia e sentia pena por ele se encontrar naquela situação. Na minha imaginação de criança, o lagarto estava indo ao encontro de sua mãe lagarta, mas não chegou ao destino.
Há poucos dias sonhei com o Lagartauro e tive curiosidade em saber um pouco mais sobre o local. Uma pequena pesquisa no google e vi que a região tem muitos atrativos, como o clima ameno, piscinas térmicas, trilhas e, obviamente, a Pedra do Lagarto. Mas acredito que voltar lá poderia destruir o meu enlevo de criança. Provavelmente iria achar a pedra não tão extraordinária assim. Com certeza iria achá-la bem menor, já que a dimensão de grandeza de quando se é criança é bem diferente. Iria também me decepcionar ao ver que o lagarto não é tão perfeito como imaginava. De fato, iria ver que o lagarto é apenas uma formação rochosa e a magia da história iria se desvanecer. Escolho levar para a vida a sensação daquela época e que sobrevive comigo até hoje, mesmo que em forma de sonho.
Imagem vs Palavras
Viagem Governador Valadares – Timóteo
Acontecia pelo menos uma vez por mês e era mais ou menos assim…
No domingo à tarde, após o almoço, os meus pais começavam a jogar buraco na casa da minha avó materna. E aí podia cair o mundo que eles não ligavam. Eu e meu irmão arrumávamos algo para distrair até a hora da viagem. Nada de Internet, que não era comum naquela época. Uma das brincadeiras era roubar os sapatos dos tios e tias, montar uma loja e quem quisesse recuperar o calçado tinha que pagar. E aí conseguíamos uns trocados para comprar bala.
Às 16 horas, com muito sacrifício, o jogo de buraco era interrompido. Meu pai não gostava e até hoje não gosta de pegar estrada à noite. Abraços nos avós, nos primos e nos tios. Íamos rumo à casa da avó paterna para nos despedirmos dos parentes de lá. Mais abraços nos familiares e aí sim pegávamos a estrada. Valadares e Timóteo ficam bem perto, mas quando se é criança, a noção de tempo e distância ainda é meio anormal. Meu pai sempre tinha que responder se “tá chegando?” e “onde estamos?”. Para passar o tempo, eu meu irmão às vezes brincávamos com os carros que estavam atrás, dando “joinha” e “tchau”. Alguns respondiam, riam e a gente ria de volta. Tinha também a brincadeira da família, a de escolher uma cor de caminhão e ver qual cor passava mais pela estrada. Eu sempre escolhia o vermelho. Sempre perdia.
No som, alguma trilha de novela da minha mãe (como ela gostava de comprar trilhas de novelas!), Gal Costa, Milton Nascimento, Jovem Guarda ou alguma fita com músicas do rock brasileiro dos anos 80. Eu e meu irmão ríamos de algumas letras. E até hoje eu escuto essas músicas e tenho uma sensação nostálgica da viagem.
Às vezes, eu e Eugênio estávamos tão cansados que dormíamos a viagem inteira. Mas era de praxe acordar com os quebra-molas em Coronel Fabriciano. Nessa hora, meu pai geralmente já tinha passado para a rádio para ouvir o final de alguma partida de futebol. E aí acabava a partida e era 18h, hora da Ave Maria. E aquilo para mim era tão triste, tão melancólico. Significava que a gente estava chegando em casa. Mas significava também que era domingo e o céu escurecia. E que a gente tinha que ir à escola na manhã seguinte. E geralmente tinha algum dever de casa que deixamos para fazer no domingo. Acho que desde esse tempo eu já tinha essa sensação de um domingo inerte, monótono e elegíaco. Hoje eu chamo isso de “dominguite”.
Tenho essas lembranças muito vivas ainda comigo. O que não consigo lembrar de jeito nenhum é quando foi a última vez que eu e minha família fizemos essa viagem.
O encontro
(Retirado do meu caderno da 1ª série do Ensino Fundamental)
Quando canguruzinho Beto saiu da jaula foi para o jardim do velho Caticó. Lá no jardim encontrou formiga, o nome dela era Pixixica.
Beto falou
- Vamos namorar?
Sim, disse Pixixica tão feliz. E aí canguruzinho Beto e formiga Pixixica casaram, e ganharam uma filha chamada Elizete.
Quando Elizete cresceu foi professora e ensinou muitas coisas importantes para os seus alunos.



