COP 16 Senegal
O COP 15 foi um fiasco e eu e o Rodrigo Moreira sabemos o motivo. Onde já se viu fazer conferência do clima numa cidade como Copenhague? E ainda em pleno dezembro! Galera lá morrendo de frio, usando sobretudo e cachecol, correndo pra entrar nas salas de reuniões onde o aquecedor tá ligado. Aí rola a discussão de que vai ter um aumento de dois graus na temperatura do planeta. Poxa, bom demais subir dois grauzinhos ali nos países nórdicos, não?
Aí que decidimos que a próxima conferência vai ser COP 16 – Senegal (tão valendo diversas outras cidades quentes do mundo também, Belo Horizonte inclusive, mas Senegal é mais legal de falar né?). Em pleno verão, claro. E os representantes vão ter que usar terninho sim, oras, a reunião é coisa séria, formal, não rola chinelinho. E nada de ar condicionado na sala. Tem que sofrer os efeitos do clima. E ainda ia rolar um “momento simulação do futuro”, quando a sala de reuniões ficaria dois graus mais quente só pro pessoal sentir de verdade o que é esse negócio de alteração climática.
Imagina só, o Obama suando debaixo do terninho, a escova no cabelo da Michelle se desfazendo, o Sarkozy com pizza, a Angela Merkel com suor nas dobrinhas. A gente até já escolheu o slogan: “COP 16 Senegal – suando para salvar o mundo”.
Achismos agridoces de novembro
Eu acho que me tornei aquelas pessoas chatas sem tempo pra nada. Eu acho que eu deveria dormir mais. Eu acho que mal vou escrever aqui. Eu acho que não vou dar conta de tudo que tenho que fazer. Eu acho que nunca vou conseguir aprender alemão. Eu acho que ando confundindo uns sentimentos…
Em dezembro eu volto a ter certeza.
Declaration of Dependence – Kings of Convenience
(Para o Pílula Pop)
Em meio ao turbilhão de decisões profissionais e remendos do coração, a gente acaba complicando ainda mais a vida porque ansiamos loucamente por independência. A gente reclama da falta de dinheiro, de ainda morar com os pais, de ter perdido aquele que achávamos ser o amor de nossas vida. E a gente reclama também porque as bandas não trazem novidades, não fazem discos geniais, não inventam a roda de novo. E aí fica difícil perceber que a tranquilidade pode ser encontrada justamente no oposto disso: na declaração da dependência e em um disco tão bonito e simples como este novo do Kings of Convenience.
A dupla da Noruega apresenta o mesmo folk-bossa-nova do anterior Riot on an Empty Street. Os arranjos continuam bem parecidos, com violão, ukelele, violino e piano, acompanhados pelos vocais calmos e sobrepostos de Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe. Das treze canções, pelo menos uma terá nas letras um tema que fará com que a gente fale “é a minha música”. Isso pode ocorrer ao lembrarmos de um relacionamento de idas e vindas (“Boat Behind”) ou ao constatarmos que nos sentimos vulneráveis perto de algumas pessoas (“Mrs Cold”).
E não precisa ter o coração partido ou necessariamente ter lembranças tristes para se identificar com Declaration of Dependence. “Freedom and its owner” fala da liberdade (que a gente tanto almeja e nos frustamos porque achamos que nunca vamos alcançá-la) de uma forma não ansiosa. A canção nos ensina que “freedom is never greater than its owner” e que “no view is wider than the eye”. “Power of not knowing” segue a mesma linha “pra acalmar o coração”. Enquanto o violão é dedilhado, Erlend e Eirik cantam (para mim): “Our bigger blessing, girl/ Is being young/ The power of not knowing/ Where you belong”.
E aí a gente para de reclamar e agradece por existir um disco tão melancolicamente bonito como Declaration of Dependence, desses que a gente escuta sem se preocupar com o tic tac do relógio. Não é preciso descobrir a pólvora para ser um disco bom. Basta falar de forma bonita dessas coisas como amor, liberdade e independência. Pensando bem, isso é sim genial.
Francesca Woodman
Conheci o trabalho da Francesca Woodman quando tive que fazer uma apresentação para a pós em Arte Contemporânea (olha aí um dos motivos para o abandono do blog!). Eu nunca tinha ouvido falar dela antes. Quem recomendou foi a amiga querida que sabe bem dessas coisas de meninas que falam de meninas.

A Francesca era uma fotógrafa americana. Começou a tirar fotos aos 13 anos. Fotografava em preto e branco e muitas vezes ela mesma era a modelo. O trabalho dela chama atenção por ser muito, muito honesto. Tem um quê de precariedade, não é virtuoso, não representa estereótipos femininos. É daquelas obras densas simbolicamente, mas que a gente não fica querendo achar significado por trás das coisas. Ainda que seja um trabalho bem performático, é desprendido de discursos, de narrativas, de ficções.


Muitas fotos têm longa exposição e ficam borradas, principalmente pelo movimento da cabeça. E aí a gente percebe o quanto parecia importante pra Francesca trabalhar com o corpo, com a ideia do corpo como lugar, ocupando o espaço, mas ele também sendo o espaço.


Francesca fotografou até os 23 anos, quando se atirou de uma janela e morreu. Seu suicídio impressiona mais as pessoas que seu trabalho. Mas eu fiquei realmente admirada pelas fotos tão lindas. É um melancólico bonito, de performances inquietantes, que dá uma impressão de que havia ali uma angústia tão grande, de ansiedades e um desejo de conseguir um resultado inalcançável.


Algumas fotos transmitem ideias de claustrofobia, de obsessões escancaradas, de uma busca pela felicidade pura. Eu me pergunto se o trabalho dela é mais fácil de ser reconhecido por meninas. Não quero soar sexista ao dizer isso, mas fico curiosa pensando o que os homens acham do trabalho da Woodman. Já li umas coisas por aí que me fizeram pensar “ah, é homem e não vai entender nunca”. De qualquer forma, fica a dica pros leitorinhos que as fotos de Francesca são algo do tipo what if feels like for a girl. De vez em quando é bom largar as Playboys e tentar entender melhor essas coisas difíceis de meninas (veja bem, não falei que é tão simples assim entender, hein!).

Mais fotos de Francesca Woodman aqui.
Saudade de um apartamento em Paris

Lá dormi num sofá vermelho
O sono de que mais precisava
Liguei para amigos
De um telefone preto
E comi a melhor geléia do mundo
No apartamento de Paris
Entrava gente de todo lugar
E lá eu entendi
Sobre amizades
E sobre esta coisa
Do tãolongetãoperto
Sobre guarda-chuvas
Os guarda-chuvas com muitos furinhos podem tornar-se extremamente frágeis depois de um tempo. É que o remenda daqui e o remenda dali podem não funcionar muito bem. E aí quando percebemos os pingos de chuva já se misturaram com as lágrimas do choro. E tudo fica confuso desse jeito. Esses guarda-chuvas velhinhos merecem ser guardados com todo amor e carinho do mundo, porque eles já protegeram de muita chuva. Não se abandona esses protetores assim tão facilmente. Mas aí que a caminhada vai seguindo e ainda tem muita chuva pra cair. E às vezes é melhor se molhar mesmo porque não há como evitar. É só lembrar que no caminho vão aparecer outros guarda-chuvas pra se dividir. E às vezes, quem sabe, até mesmo um guarda-chuva novinho, sem remendos, que irá proteger de novas tempestades. Sempre acha-se um jeito para a proteção chegar. E também dizem que o tempo é bom remédio e cura tudo. Quem sabe não cura os furinhos daquele velho guarda-chuva?
Beijos guardados. E discos só do Leonard Cohen por um tempo.




